As condições para a inovação


Com inovação, o Brasil pode mudar muito em cinco a dez anos”, disse a diretora executiva do Massachusetts Institute of Technology (MIT) Industrial Performance Center (IPC), Elizabeth Reynolds, durante o Fórum Estadão Brasil Competitivo, promovido pelo jornal em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). O objetivo do encontro foi discutir o cenário atual da inovação no Brasil, além de apontar caminhos para que empresas e empreendedores participem ativamente do processo de aceleração da inovação.

Para a pesquisadora, o Brasil tem apresentado um “progresso significativo” na agenda de inovação, mas os ganhos associados com essas políticas ainda são limitados. O País é pouco integrado à economia mundial e seus programas de inovação são muito abrangentes e pouco profundos, avaliou Reynolds, que destacou a importância de elaborar uma estratégia mais especializada, tendo em vista que os custos e riscos associados à inovação são muito altos.

Reynolds apresentou uma agenda de prioridades para o País acelerar suas estratégias de inovação, desenvolvida a partir do projeto de pesquisa do MIT Accelerating Innovation in Brazil. Um dos pontos é aumentar a integração do País com o mundo, flexibilizando as regras de conteúdo local, ampliando a abertura comercial e facilitando o acesso a centros de inovação internacionais.

A política industrial deve estar mais orientada para a inovação, com regras que facilitem lidar com tecnologias e mercados em mudança, mas a regulamentação é asfixiante. É importante reforçar o papel das universidades como fomentadoras de inovação, além de apoiar as iniciativas que estimulem um “ecossistema de inovações”. Há no País algumas “ilhas” de inovação, num modelo de difícil sustentabilidade, já que o processo, para ser eficiente, requer ampla integração.

Para promover a inovação, outra prioridade é o desenvolvimento de estratégias de longo prazo em áreas em que o País tem vantagem comparativa, como o agronegócio, a energia renovável e a extração de petróleo de águas profundas. Um estudo do MIT indica que o Brasil tem desenvolvido tecnologia de ponta em vários setores. Daí vem a importância de políticas públicas adequadas, para não perder o que se alcançou.

“É preciso ter agenda de longo prazo para a inovação. É um processo que leva tempo, envolve muitas mudanças e exige retirar as amarras”, disse Fernanda de Negri, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do MIT, que também participou do Fórum Estadão. Ela lembrou três condições para um país inovar: pessoas qualificadas, infraestrutura adequada e ambiente de incentivo ao empreendedorismo. No caso brasileiro, “temos muito a fazer em todas essas frentes”, disse. “Você não dá hoje a um pesquisador brasileiro alternativa de trabalho que não seja ser professor universitário. (...) Nossa estrutura de pesquisa está muito centrada nas universidades”, avaliou.

Os gastos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) também foram assunto do evento. No Brasil, metade desses investimentos é feita pelo Estado. E mesmo a parcela investida pelas empresas é, em boa medida, subsidiada pelo poder público. Nos países desenvolvidos, o setor privado é responsável por mais de dois terços dos projetos de P&D.

“A inovação no Brasil tem sido guiada pelo Estado há muito tempo”, afirma outro estudo do MIT, feito a pedido do Senai e divulgado no Fórum Estadão. Também a inovação enfrenta conhecidos problemas da atuação estatal: burocracia, atrasos em projetos e fragmentação da estrutura. Observa-se uma falta de conexão entre os técnicos do governo e o setor privado, o que é extremamente significativo para a inovação, afirma o estudo. A recomendação é que o governo crie uma agenda de medidas que melhorem o ambiente de negócios e estimulem o investimento privado.

É preciso olhar a inovação com profissionalismo e perspectiva de longo prazo. O mundo avança com rapidez e há cada vez menos espaço para o amadorismo e o voluntarismo.

 

12 mar 2018


Por O Estado de S.Paulo

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